Newsgames: a Teoria Leva à Prática

À primeira vista, é um jogo comum. Depois de alguns cliques, referências à vida real começam a entrar em evidência. Dados, nomes e informações que fazem parte do game, de alguma forma, lembram aquela matéria vista na TV. Assim são os newsgames, os jogos baseados em notícias.

Criador da Teoria dos Newsgames, publicada em 2012, o brasileiro Geraldo Seabra nunca jogou video game – o que parece irônico quando se conhece sua trajetória acadêmica. Graduado em jornalismo e mestre em comunicação, passou a noite em claro quando precisou definir o objeto de estudo para a pesquisa de mestrado. No brainstorm, teve um lampejo: se os games aglutinam diversos formatos narrativos, por que não unir jogos e jornalismo? Com essa ideia em mente, publicou artigos e defendeu a dissertação, além de criar um blog sobre o assunto. Segundo Seabra, a base narrativa do jogo como informação é a própria notícia e, sem ela, o game não é nada mais que um jogo comercial. Por ser um modelo recente de jornalismo, entretanto, sua definição e seus limites ainda são nebulosos para os pesquisadores e desconhecidos para o grande público.

Em 2004 os newsgames começaram a aparecer timidamente nos sites internacionais de notícias. O jornal El País, da Espanha, foi um dos precursores, lançando um jogo sobre os ataques terroristas à capital espanhola. O newsgame Madri convidava os jogadores a acender velas em homenagem às vítimas do atentado, e foi ao ar dois dias após o episódio. Outro jogo que segue o mesmo conceito é o September 12th, que pode ser encarado como uma crítica ao combate aos muçulmanos como terroristas.

Apesar de ainda não ter se estabelecido por completo, esse modelo de jornalismo está em ascensão no Brasil e no mundo. Um dos precursores do newsgame no país foi o site de notícias G1, que criou, em 2007, o “NanoPops da política internacional”. No mesmo ritmo estava a Editora Abril, que investe no gênero desde 2007 e mantém um blog da sua Revista Superinteressante sobre as tendências dos jogos baseados em notícia. Para o coordenador da equipe de internet do Núcleo Jovem e Infantil da Editora Abril e moderador do blog, Fred di Giacomo, o papel do jornalista é fundamental quando se trata da aliança da informação com o jogo. “Trabalhamos, no mínimo, com dois jornalistas por projeto: um faz a apuração, o outro faz a edição. O newsgame deve informar e divertir e, sem esse profissional, ele perde seu lado news e vira só game”, defende.

Um newsgame, entretanto, só é válido e útil quando a forma vem aliada ao conteúdo. “Acho importante que os jogos sejam criados quando são a melhor maneira de contar uma história”, opina Fred. Pedro Dias, editor do site zerohora.com, completa: “Nós temos uma gama de assuntos e, para cada um, tentamos encontrar a plataforma que irá comunicar melhor aquele tema”. Ou seja, só depois de decidir a pauta é que vem o planejamento do formato de transmissão mais interessante para ela, e não o contrário.

O jornal gaúcho Zero Hora aposta no newsgame como forma de transmitir informação. Criar um jogo, porém, demanda tempo, investimento e conhecimento especializado. Além de jornalistas, é preciso contar com profissionais de animação, programadores, cenógrafos… Para desenvolver o game A Batalha do Barro Vermelho, que fez parte da Revolução Farroupilha, por exemplo, foi necessária uma equipe de seis pessoas. “A jornalista criou toda a produção do texto, entrou em contato com historiadores. A equipe da arte pesquisou as referências visuais, como as roupas dos personagens e os cenários”, conta o editor de arte Guilherme Gonçalves.

Guilherme Gonçalves, editor de arte do Zero Hora (Foto:Bárbara Pustai)

Por ser muito semelhante aos jogos tradicionais, deve existir um cuidado extra na hora de produzir um game baseado em notícia. É indispensável que haja equilíbrio entre informação e diversão. “Nós tomamos cuidado para não fazer simplesmente um jogo, focamos muito no gancho jornalístico. Metaforicamente falando, o newsgameprecisa sempre ter 51% de informação e 49% de entretenimento”, esclarece o editor Pedro Dias.

Produzir um jogo baseado em notícias é fugir do jornalismo on-line tradicional, ir além do texto com hiperlinks: é buscar alternativas inovadoras até então somente encontradas na indústria do entretenimento.

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