Experiência em quadrinhos

Totalmente envolvida pela pauta, esta repórter se propôs a produzir uma reportagem em quadrinhos de próprio punho para fechar este assunto com post de ouro. A empreitada foi dividida com o historiador e quadrinista Bruno Ortiz.

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Um case brasileiro de JQ

Alexandre de Maio e CarlosCarlos formam uma dupla. Todos os meses produzem uma reportagem em quadrinhos para a Revista Fórum. Alexandre é o ilustrador que desenha o texto de CarlosCarlos, jornalista e entusiasta do mundo das artes. Juntos produzem matérias de cunho social em que todo o trabalho é realizado em conjunto: desde a definição da pauta até as saídas de campo. “O Alexandre tem espaço aberto para dar sugestões de temas e fazer perguntas aos entrevistados, assim como eu dou pitacos nas ilustrações. Dessa forma fica muito mais interessante, o leitor consegue perceber que há uma unidade”, conta CarlosCarlos. Para essa dinâmica funcionar, entretanto, é importante que exista uma sintonia entre os parceiros. O sistema utilizado por eles é simples e resulta em trabalhos qualificados.

Na reportagem sobre a cracolândia, decidiram deixar de lado os estereótipos e os personagens já marcados pela mídia. Para isso, durante o trabalho de apuração, procuraram por um usuário que tinha uma visão mais crítica da situação. “Os depoimentos foram impressionantes”, afirma Alexandre. “É muito boa a sensação de ver cada trabalho finalizado e perceber que estamos produzindo uma reportagem que quebra os paradigmas do jornalismo tradicional, tanto na forma quanto no conteúdo”, conclui CarlosCarlos.

E o Brasil?

A partir de 1860, com o aumento das publicações ilustradas, começaram a aparecer as primeiras reportagens desenhadas no Brasil, por conta do ilustrador italiano radicado no Rio de Janeiro Ângelo Agostini (1843-1910), conhecido como “repórter do lápis” e considerado o pai da história em quadrinhos do país.

Alguns jornais brasileiros têm investido no jornalismo em quadrinhos. Em 1999, O Estado de S. Paulo publicou uma entrevista em quadrinhos da repórter Patrícia Villalba e dos ilustradores Gabriel Bá e Fábio Moon. Em 2008, O Globo publicou a série Favela S.A.

Já o blogueiro Daniel Gnattali trabalhou intensamente na Festa Literária de Paraty (Flip) de 2012. “Durante o evento em Paraty e na pós-Flip, ele cobriu os acontecimentos on-line, colocando no ar uma página por dia”, comenta Aristides Dutra.

Possibilidades

O jornalismo em quadrinhos requer um tratamento diferenciado daquele despendido às reportagens tradicionais, a começar pela apuração. “É necessário levantar não somente as informações, mas também os aspectos e as características visuais dos locais, das pessoas e dos fatos relatados. Depois de apurada, a matéria não será redigida, mas roteirizada, o que é um pouco mais complicado.”, explica Aristides Dutra, autor da dissertação Jornalismo em Quadrinhos: A Linguagem Quadrinística como Suporte para Reportagens na Obra de Joe Sacco e Outros Autores.

Esse processo mais lento dificulta a produção de reportagens em quadrinhos em ritmo diário, mas não a impede. “Existe espaço para o jornalismo em quadrinhos nas redações diárias principalmente como reportagem especial. O que é difícil é a possibilidade de se fazer reportagens em quadrinhos longas e detalhadas em ritmo diário”, esclarece Dutra. Segundo ele, o jornalismo do dia a dia utiliza recursos dos quadrinhos através dos boxes de reconstituição de fatos. Muitas vezes classificados como infográfico, eles são frequentemente imagens sequenciais narrativas – ou seja, pequenas histórias em quadrinhos de natureza jornalística.

Não é no jornalismo diário, porém, que o gênero se destaca. A revista trimestral francesa XXI produz uma reportagem em quadrinhos original por edição. Até publicações tradicionais como a revista New Yorker têm investido nos quadrinhos jornalísticos. O trabalho mais ousado foi do jornal diário Libération: em janeiro de 2011, publicou uma edição inteira sem fotos, substituídas por quadrinhos e ilustrações. O motivo para tal empreendimento foi a abertura do Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême.

Uma questão de formato

Apesar de aparecer em periódicos impressos, essa não é a mídia mais usual – e de maior sucesso – das reportagens em quadrinhos. Segundo a jornalista Miriam Paço, o livro-reportagem tende a ter formato mais adequado que jornais e revistas para esse tipo de publicação. “A reportagem em quadrinhos exige, em geral, não apenas mais tempo para ser produzida, mas também um maior aprofundamento. Pense no New Journalism e na utilização do livro-reportagem por autores como Truman Capote e Tom Wolfe. É a mesma lógica, a diferença está no fato de que os HQ-repórteres preferiram os quadrinhos em vez do texto puro”, exemplifica.

Mas nada impede que o gênero apareça nos tradicionais gibis. Joe Sacco, antes de lançar os premiados livros Palestina: Uma Nação Ocupada e Palestina: na Faixa de Gaza, publicou uma série de nove revistas em quadrinhos com o material. A internet também é uma aliada do JQ, além de ser a plataforma mais expressiva e agregadora.

Trajetória

O JQ que conhecemos começou a ser produzido no início da década de 1990, por meio de mãos e olhos apurados do jornalista Joe Sacco. Apesar de 20 anos de história, o gênero ainda não se estabeleceu por completo. “O quadrinho documental está em franca ascensão, mas o quadrinho jornalístico precisa ainda buscar suas metodologias de trabalho. De qualquer forma, vejo com otimismo a quantidade de pessoas que têm estudado e se interessado pelo assunto, além dos novos autores que surgem todos os dias”, explica o professor Muanis.

Entre 1986 e 1992, o cartunista Art Spiegelman publicou a biografia em quadrinhos Maus, que relata a luta do pai para sobreviver em um campo de concentração nazista. Concebido originalmente no formato de revista, foi relançado em livro de dois volumes – o que conferiu a Spiegelman o primeiro Prêmio Pulitzer de jornalismo dado a um quadrinista, em 1992. Outros nomes consagrados vieram na sequência, como Will Eisner (Ao Coração da Tempestade), Joe Kubert (Fax from Sarajevo), Marjane Satrapi (Persépolis) e Didier Lefèvre (O Fotógrafo).

Dan Archer, proprietário do site Archcomix, publica reportagens em quadrinhos com teor político, além de produzir quadrinhos interativos. “É uma nova técnica. Não podemos imprimir as reportagens dele, pois perderíamos um elemento constitutivo do trabalho”, comenta Augusto Paim, admirador da obra do cartunista. O Cartoon Movement é outro site voltado ao JQ, mas com uma proposta colaborativa. Fundado em 2012 pelo jornalista Thomas Loudon e pelo consultor Arend Jan van den Beld, o site conta com mais de cem colaboradores de cerca de 60 países. O projeto mais ousado, porém, é do site japonês News Manga, que encara o desafio de publicar um mangá jornalístico por dia.

Linha do Tempo do JQ

Esqueça os super-heróis: jornalismo em quadrinhos é assunto sério

Desenhos e balões. O primeiro impulso é associar esses grafismos aos gibis devorados na infância. O leitor mais atento, porém, logo percebe que esse material não é voltado apenas para os fãs de HQs. Jornalismo em quadrinhos é a notícia apresentada de forma mais divertida, mas ainda assim comprometida com os fatos.

Na contramão da tecnologia, essa vertente do jornalismo faz uso do desenho (quase) artesanal em busca de um lugar ao sol – e no mercado. Tendo como precursor o jornalista e ilustrador maltês radicado nos Estados Unidos, Joe Sacco, o jornalismo em quadrinhos (ou JQ) ainda engatinha no Brasil. Segundo o HQ-repórter e organizador dos I e II Encontro Internacional de Jornalismo em Quadrinhos, Augusto Paim, além de escassos, os exemplos de JQ ainda pecam pela falta de produção adequada. “No mau jornalismo em quadrinhos o repórter realiza a apuração sozinho e o desenho é feito depois, baseado no texto. O bom JQ requer dois profissionais que executem o trabalho juntos ou, então, um jornalista que também cumpra o papel de ilustrador”, explica. O que difere o JQ do jornalismo tradicional, portanto, não é o discurso nem a maneira de produzir a reportagem, mas a forma como a notícia é apresentada ao público. De acordo com o doutor em comunicação e professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (UFF), Felipe Muanis, esse modelo de jornalismo traz uma nova metodologia de apuração e manuseio da informação. “Muda a prática do jornalismo, muda a informação e muda a leitura”, esclarece. Mas permanece a essência.

O quadrinho, por ser desenhado, traz à tona uma discussão crucial para o jornalismo: a objetividade e a imparcialidade da notícia. “Tanto os manuais de redação quanto as fotografias, da maneira como são, tendem a corroborar o conceito de objetividade. Para o leitor, o desenho acaba com essa ideia, ainda que, na prática, tanto o quadrinho quanto a foto ou o texto jornalístico sejam igualmente parciais e não objetivos”, defende Muanis. A jornalista Miriam Paço, autora da monografia O Desenho da Reportagem: Estruturas Narrativas e Análise da Obra O Fotógrafo no Universo Jornalístico Sequencial, concorda com o colega: “Sabemos que nenhuma reportagem, por mais que se tente, é neutra. No meu trabalho adotei a mesma visão de alguns pesquisadores que afirmam que uma reportagem pode ser subjetiva e nem por isso deixar de ser real e informativa. O jornalista tem que ser fiel aos acontecimentos e é isso que importa”.

Essa reflexão leva a outro debate importante: o semianonimato. “Quando você desenha alguém em vez de fotografar, ao mesmo tempo em que a identidade da pessoa é revelada, também é preservada”, afirma Augusto Paim. Por trabalhar, usualmente, com temas áridos, esse recurso permite que os personagens/entrevistados não sejam fisicamente reconhecíveis e, consequentemente, não corram riscos. Essa tendência de trabalhar com temas densos, segundo Paim, pode existir como forma de legitimação. “O quadrinho é uma linguagem estereotipadamente tida como infantil e, talvez, para mostrar que seu trabalho é sério, seja interessante trabalhar um tema denso”, argumenta.

Entrevista com Augusto Paim sobre o jornalismo em quadrinhos. (Gravação: Bárbara Pustai)